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Goniometria em cães: como medir e valores de referência
A goniometria mede, em graus, a amplitude de movimento passiva de uma articulação. É barata, rápida e, quando bem feita, confiável. Em Labradores, os valores medidos com goniômetro não diferiram dos medidos em radiografia nem entre três avaliadores, e medidas repetidas pela mesma pessoa variaram de 1 a 6°, com mediana de 3° (Jaegger, Marcellin-Little e Levine, 2002).
O problema não costuma estar no aparelho, e sim no método. Marco ósseo mal localizado, posição diferente entre uma sessão e outra ou um avaliador novo produzem diferenças que parecem evolução e não são. Este guia reúne a técnica, os valores de referência publicados e o que fazer com o número depois de medido.
Qual goniômetro usar
Use o goniômetro universal de plástico, de preferência transparente. Quando um eletrogoniômetro foi comparado ao goniômetro universal em Pastores-alemães, o eletrônico foi mais variável na maior parte das posições articulares (8 de 12), e os autores não recomendaram seu uso com aquela técnica (Thomas et al., 2006).
Dois detalhes práticos:
- Tamanho dos braços. Os estudos usaram desde um goniômetro de 35 cm (Buldogues franceses) até modelos de braços de 20 cm (Dachshunds miniatura). Braços proporcionais ao membro facilitam o alinhamento com os eixos ósseos.
- Ângulos acima de 180°. A extensão do carpo passa de 180°. Nos Labradores, a média foi de 196°. Defina como você lê esse ângulo e use a mesma convenção sempre.
Posição do paciente e técnica
O protocolo abaixo é o descrito para Labradores e reproduzido nos estudos seguintes:
- Decúbito lateral, medindo o membro de cima. Para medir o outro lado, vire o paciente.
- Explore a articulação em toda a amplitude antes de medir, para localizar o centro de rotação.
- Eixo do goniômetro sobre o centro de rotação da articulação.
- Braços alinhados aos eixos longos dos ossos, guiados pelos marcos ósseos palpáveis (tabela abaixo).
- Flexão e extensão máximas passivas, sem forçar além do ponto em que o paciente demonstra desconforto.
- Três leituras por movimento, registrando a média ou a mediana.
A sedação não alterou a amplitude articular em Labradores (Jaegger et al., 2002), e os Buldogues franceses foram medidos acordados, contidos pelos responsáveis (Formenton et al., 2019). Em Pastores-da-anatólia, a flexão e a extensão máximas foram medidas sob sedação, e os autores consideram a sedação profunda essencial para obter a amplitude completa nessa raça (İnal et al., 2026). A colaboração do paciente também conta: em cães acordados, saudáveis ou com doença do ligamento cruzado cranial, ela influenciou a medida da extensão do joelho, e não a da flexão (Volz et al., 2024).
Articulação a articulação: onde ficam os braços
Marcos de referência conforme a descrição de Formenton e colaboradores (2019), que segue a técnica de Jaegger e colaboradores (2002). Em todas as articulações, o eixo do goniômetro fica sobre o centro de rotação.
| Articulação | Braço 1 | Braço 2 |
|---|---|---|
| Ombro | eixo longo do úmero | espinha da escápula |
| Cotovelo | eixo longo do antebraço | eixo longo do úmero |
| Carpo | eixo longo do 3º e 4º metacarpianos | eixo longo do antebraço |
| Quadril | eixo longo do fêmur | linha entre a tuberosidade sacral e a tuberosidade isquiática |
| Joelho | diáfise da tíbia | eixo longo do fêmur |
| Tarso | eixo longo do 3º e 4º metatarsianos | diáfise da tíbia |
Valores de referência por raça
Médias de flexão / extensão, em graus (valores arredondados ao grau inteiro). Cada linha traz a raça, a condição da medida e a fonte.
Membro torácico
| Raça (n, condição) | Ombro | Cotovelo | Carpo | Fonte |
|---|---|---|---|---|
| Labrador (16; a sedação não alterou os valores) | 57 / 165 | 36 / 165 | 32 / 196 | Jaegger et al., 2002 (valores reproduzidos na Tabela 3 de Thomas et al., 2006) |
| Pastor-alemão (12, anestesiados) | 47 / 159 | 25 / 155 | 34 / 198 | Thomas et al., 2006 |
| Buldogue francês (20, sem sedação, membro direito) | 51 / 160 | 51 / 174 | 32 / 204 | Formenton et al., 2019 |
| Pastor-da-anatólia (17, sedados) | 48 / 165 | 32 / 166 | 30 / 179 | İnal et al., 2026 |
Membro pélvico
| Raça (n, condição) | Quadril | Joelho | Tarso | Fonte |
|---|---|---|---|---|
| Labrador (16; a sedação não alterou os valores) | 50 / 162 | 42 / 162 | 39 / 164 | Jaegger et al., 2002 (valores reproduzidos na Tabela 3 de Thomas et al., 2006) |
| Pastor-alemão (12, anestesiados) | 44 / 155 | 33 / 153 | 30 / 149 | Thomas et al., 2006 |
| Buldogue francês (20, sem sedação, membro direito) | 58 / 181 | 58 / 172 | 40 / 188 | Formenton et al., 2019 |
| Pastor-da-anatólia (17, sedados) | 45 / 154 | 40 / 166 | 40 / 178 | İnal et al., 2026 |
No Buldogue francês, o desvio-padrão foi alto em algumas medidas (cerca de 20° na extensão do ombro), e no Pastor-da-anatólia a goniometria do quadril diferiu da radiografia (veja abaixo). Use esses números como ordem de grandeza.
Em Dachshunds miniatura com doença do disco toracolombar, medidos acordados até 24 horas depois do diagnóstico e da cirurgia, as médias do grupo todo foram de 52° / 155° no quadril, 50° / 160° no joelho e 39° / 169° no tarso (Thomovsky et al., 2016). Não são valores de cães saudáveis, mas ajudam como ordem de grandeza nessa raça.
Por que não existe um único valor normal
Os números acima já mostram o problema. A extensão do quadril vai de 154° a 181° conforme a raça e o estudo, e a do tarso, de 149° a 188°.
- Raça e conformação. Os Pastores-alemães tiveram valores de flexão e de extensão menores que os Labradores em todas as articulações, menos no carpo, mas a amplitude total foi semelhante, exceto no tarso. Os autores atribuíram a diferença ao formato dos ossos, não ao formato das articulações (Thomas et al., 2006).
- Massa muscular. Em cães condrodistróficos, os marcos ósseos do membro pélvico são mais difíceis de palpar (Thomovsky et al., 2016). No Pastor-da-anatólia, a goniometria do quadril subestimou a flexão e superestimou a extensão em comparação com a radiografia, provavelmente por causa da massa glútea (İnal et al., 2026).
- Idade e doença. Em Labradores com displasia, a extensão do quadril foi 1° menor a cada ano de idade (Greene et al., 2013).
Na prática, a referência mais útil é o membro contralateral do mesmo paciente e a primeira medida dele próprio. A tabela serve para dar contexto, não para dar diagnóstico.
Variação entre avaliadores
A confiabilidade depende da articulação e do movimento:
- Em Labradores, três avaliadores (um fisioterapeuta e dois veterinários) não tiveram diferenças significativas entre si (Jaegger et al., 2002).
- Em Pastores-da-anatólia, a concordância entre três observadores foi de moderada a excelente na maioria das medidas, mas fraca na flexão do ombro (ICC 0,465) (İnal et al., 2026).
- No joelho, a concordância entre observadores foi excelente para a flexão e só razoável para a extensão em cães saudáveis (ICC 0,58), e excelente em cães com doença do cruzado (Volz et al., 2024).
O mais seguro é que a mesma pessoa meça o paciente em todas as reavaliações, na mesma posição e com o mesmo goniômetro. Quando isso não for possível, registre quem mediu.
O que a goniometria mostra na clínica
- Joelho com doença do cruzado: a extensão máxima foi menor nos cães acometidos, e a flexão não diferiu da dos cães saudáveis (Volz et al., 2024). Numa escala de função do joelho comparada à plataforma de força, a extensão se correlacionou com a assimetria de apoio, e a flexão não (Gundersen, Millis e Zhu, 2022). No pós-operatório de joelho, acompanhe principalmente a extensão, sem deixar de registrar a flexão.
- Instabilidade medial do ombro: o ângulo de abdução medido sob sedação foi de 53,7° nos ombros instáveis contra 32,6° nos ombros não acometidos (Cook et al., 2005, citado no artigo sobre a ficha de avaliação fisioterapêutica). Esses valores valem para a medida feita sob sedação.
- Resposta ao tratamento: em 10 Labradores com osteoartrite, dez alongamentos passivos de 10 segundos, feitos pelos responsáveis duas vezes ao dia por 21 dias, aumentaram a amplitude medida com goniômetro (Crook et al., 2007).
Perimetria: a outra metade da medida
A circunferência da coxa estima a massa muscular e acompanha a atrofia de desuso. A técnica com melhor concordância foi descrita por McCarthy e colaboradores (2018):
- Fita métrica inextensível, de preferência com mola de tensão (o estudo usou a Gulick II), para aplicar sempre a mesma pressão.
- Comprimento da coxa medido do trocânter maior até a fabela lateral. Marque o ponto a 70% dessa distância.
- Decúbito lateral, joelho em extensão. Com o joelho estendido, a coxa mediu menos do que com o joelho fletido ou na posição de estação, e foi nessa posição que os dois avaliadores mais concordaram (ICC 0,981 a 70% do comprimento).
- Sempre no mesmo ponto. A 50% do comprimento, a coxa mediu em média 5 cm a mais do que a 70%.
A sedação não alterou a circunferência de forma significativa. No mesmo estudo, feito em 10 cães com ruptura experimental do cruzado estabilizada cirurgicamente, duas semanas depois da cirurgia a circunferência da coxa diminuiu entre 2,5 cm e 3,8 cm, conforme o ponto e a posição. Em Dachshunds, o formato do membro e a proximidade da prega do flanco dificultaram a medida (Thomovsky et al., 2016).
Assimetria esquerda × direita
Em cães saudáveis, os dois lados costumam ser parecidos. Os Buldogues franceses tiveram amplitudes semelhantes à direita e à esquerda (Formenton et al., 2019), e nos cães controle do estudo de instabilidade do ombro não houve diferença entre os lados (Cook et al., 2005). Por isso, numa lesão unilateral, o membro contralateral é a melhor referência.
Numa escala de função do joelho, a perimetria foi pontuada pela diferença em relação ao membro oposto: de 1 a 5%, de 6 a 10% e acima de 11% (Gundersen, Millis e Zhu, 2022). É um exemplo de como transformar a assimetria em critério, não um valor de corte validado. Em doença bilateral, como displasia nos dois quadris, o membro oposto deixa de ser controle e a linha de base do próprio paciente passa a ser a referência principal.
Registre ao longo do tratamento e mostre ao responsável
Uma medida isolada diz pouco. A série mostra a evolução. Registre cada medida com data, lado, movimento, posição e quem mediu. Repita na mesma condição a cada reavaliação.
No VetMotion, cada medida de goniometria e de perimetria vira um gráfico por articulação e por movimento, com o lado esquerdo e o direito em linhas separadas, e a assimetria mais recente aparece resumida. Na aba Evolução, o painel Evolutivo junta dor, peso, amplitude articular e condição corporal na mesma linha do tempo, e o modo Apresentar mostra esse painel em tela cheia para você explicar a evolução ao responsável durante a consulta. É assim que "ele está melhor" vira, por exemplo, "o joelho operado ganhou 15° de extensão desde a primeira avaliação".
Perguntas frequentes
Qual é a amplitude normal do joelho de um cão?
Depende da raça e do método. Em Labradores, a flexão média foi de 42° e a extensão de 162°. Em Pastores-alemães anestesiados, de 33° e 153°. Em Buldogues franceses não sedados, de 58° e 172°. Por isso, além da tabela, compare com o joelho contralateral e com a primeira medida do próprio paciente.
Preciso sedar o cão para fazer goniometria?
Em geral, não. Em Labradores, a sedação não alterou a amplitude medida, e Buldogues franceses foram medidos acordados, contidos pelos responsáveis. Em cães gigantes ou ansiosos, a flexão e a extensão máximas podem não ser toleradas acordado. O que importa é repetir a mesma condição em todas as reavaliações e anotar se houve sedação.
Quantas vezes devo medir cada articulação?
A maioria dos estudos de referência mediu cada articulação três vezes e usou a média ou a mediana. Na rotina, três leituras por movimento reduzem o efeito de uma leitura isolada fora do padrão. Registre o valor final e mantenha o mesmo método nas reavaliações.
Qual diferença em graus indica melhora real?
Não encontramos, nas fontes consultadas, um ponto de corte consolidado para cães. Como as medidas repetidas pelo mesmo avaliador variaram de 1 a 6° em Labradores, uma mudança de poucos graus pode estar dentro do erro da própria medida. Ganhos maiores, sustentados em mais de uma reavaliação e coerentes com a função do paciente, são mais confiáveis.
Goniometria também funciona em gatos?
Sim. Em 20 gatos adultos, as medidas com goniômetro, com e sem sedação, não diferiram das medidas feitas em radiografia, e a repetibilidade foi muito alta. A técnica é a mesma, com um goniômetro de braços menores, proporcional ao membro.
Em que ponto da coxa devo medir a perimetria?
A 70% do comprimento da coxa, medido do trocânter maior até a fabela lateral, com o cão em decúbito lateral e o joelho em extensão. Nessa posição, a concordância entre dois avaliadores foi a mais alta do estudo. Use sempre o mesmo ponto e a mesma posição: mudar o local ou o ângulo do joelho altera o valor.
Fontes consultadas
- Jaegger G, Marcellin-Little DJ, Levine D (2002). Reliability of goniometry in Labrador Retrievers. American Journal of Veterinary Research 63(7), 979–986
- Thomas TM, Marcellin-Little DJ, Roe SC, Lascelles BDX, Brosey BP (2006). Comparison of measurements obtained by use of an electrogoniometer and a universal plastic goniometer for the assessment of joint motion in dogs. American Journal of Veterinary Research 67(12), 1974–1979
- Formenton MR, de Lima LG, Vassalo FG, Joaquim JGF, Rosseto LP, Fantoni DT (2019). Goniometric Assessment in French Bulldogs. Frontiers in Veterinary Science 6, 424
- İnal KS, Bağatır Kurban E, Nacar C, Önyay T (2026). Evaluation of joint range of motion in Anatolian shepherd dogs: inter-observer reliability and radiographic validation. BMC Veterinary Research 22
- Volz F, Schmutterer JM, Vockrodt TS, Zablotski Y, Lauer SK (2024). Inter-rater reliability in performing stifle goniometry in normal and cranial cruciate ligament disease affected dogs: a prospective randomized controlled study. BMC Veterinary Research 20, 339
- Thomovsky SA, Chen AV, Kiszonas AM, Lutskas LA (2016). Goniometry and Limb Girth in Miniature Dachshunds. Journal of Veterinary Medicine 2016, 5846052
- Jaeger GH, Marcellin-Little DJ, DePuy V, Lascelles BDX (2007). Validity of goniometric joint measurements in cats. American Journal of Veterinary Research 68(8), 822–826
- McCarthy DA, Millis DL, Levine D, Weigel JP (2018). Variables affecting thigh girth measurement and observer reliability in dogs. Frontiers in Veterinary Science 5, 203
- Gundersen K, Millis D, Zhu X (2022). Development and testing of a stifle function score in dogs. Frontiers in Veterinary Science 9, 895567
- Greene LM, Marcellin-Little DJ, Lascelles BD (2013). Associations among exercise duration, lameness severity, and hip joint range of motion in Labrador retrievers with hip dysplasia. JAVMA 242(11), 1528–1533
- Crook T, McGowan C, Pead M (2007). Effect of passive stretching on the range of motion of osteoarthritic joints in 10 labrador retrievers. Veterinary Record 160(16), 545–547
- Cook JL, Renfro DC, Tomlinson JL, Sorensen JE (2005). Measurement of angles of abduction for diagnosis of shoulder instability in dogs using goniometry and digital image analysis. Veterinary Surgery 34(5), 463–468
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