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Escala de dor em gatos: Feline Grimace Scale × UNESP-Botucatu

Gatos · 9 min de leitura · Por Equipe VetMotion

Médica-veterinária examinando com as mãos um gato rajado tranquilo, de olhos abertos, em pé sobre a mesa numa sala de reabilitação
Resumo: As duas escalas de dor aguda mais usadas em gatos medem coisas diferentes. A Feline Grimace Scale (FGS) pontua 5 unidades de ação da face, de 0 a 2 cada (total 0 a 10), dispensa manipulação e indica analgesia de resgate a partir de 4/10. A escala UNESP-Botucatu tem versão completa (10 itens, 0 a 30, resgate a partir de 8) e versão curta (4 itens, 0 a 12, resgate a partir de 4), e inclui palpação da área dolorosa. Nenhuma das duas serve para dor crônica: na osteoartrite e na doença articular degenerativa, o acompanhamento é feito com instrumentos preenchidos pelo responsável, como o FMPI.

Avaliar dor em gato é um exercício de observação contra a natureza do paciente. O gato esconde dor, e a escala certa é a que consegue enxergar o que ele tenta não mostrar. Duas ferramentas validadas são recomendadas pela WSAVA para uso em consultório pelo alto grau de evidência: a Feline Grimace Scale (FGS), baseada na expressão facial, e a escala UNESP-Botucatu em sua versão curta, multidimensional, desenvolvida no Brasil. Elas não competem: cada uma responde melhor a uma situação clínica, e nenhuma das duas serve para dor crônica.

Este texto mostra o que cada escala mede, os pontos de corte da fonte oficial, quando usar uma ou outra e como registrar a evolução de forma comparável.

Por que o gato esconde a dor

As diretrizes de dor da WSAVA (2022) lembram que os gatos, por serem ao mesmo tempo predadores e presas, são hábeis em mascarar a dor. Alguns não demonstram comportamento evidente, especialmente na presença de pessoas, de outros animais ou em ambiente estressante, como a clínica. Na internação, o gato pode ficar quieto e imóvel por medo ou por estar com dor demais para se mexer. Pode também fazer o que a WSAVA chama de "sono fingido", uma postura que quem não conhece o comportamento felino confunde com descanso.

Frequência cardíaca, frequência respiratória e pressão arterial sofrem influência do estresse e não devem ser usadas sozinhas como indicadores de dor. Por isso as ferramentas atuais se apoiam em comportamento, postura e expressão facial, e é aí que entram as escalas.

Feline Grimace Scale: a dor na expressão facial

A FGS foi desenvolvida e validada na Université de Montréal (Evangelista et al., 2019) e avalia cinco unidades de ação (UA):

  1. Posição das orelhas
  2. Contração orbital (aperto das pálpebras)
  3. Tensão do focinho
  4. Posição dos bigodes
  5. Posição da cabeça

Cada unidade recebe 0 (ausente), 1 (moderadamente presente, ou há dúvida) ou 2 (claramente presente). O total vai de 0 a 10, e as diretrizes da WSAVA indicam analgesia de resgate a partir de 4/10. No estudo original, o escore foi expresso como razão: a soma é dividida pelo máximo possível, o que permite excluir uma unidade marcada como impossível de avaliar (no estudo, imagens com mais de duas unidades nessa situação foram descartadas). Nessa forma, o ponto de corte foi acima de 0,39, o que, com as cinco unidades avaliadas, equivale aos 4/10. No mesmo estudo, os gatos com dor foram reavaliados uma hora depois do analgésico, e a escala detectou a queda do escore.

Pontos fortes, segundo a WSAVA: avaliação rápida, sem precisar manipular o gato (útil em pacientes ferais ou que não toleram contato), confiável quando aplicada por veterinários, estudantes, enfermeiros veterinários e também pelos responsáveis, inclusive em gatos submetidos a extração dentária.

Cuidados práticos (site oficial da FGS e diretrizes da WSAVA):

O site oficial tem versão em português, material de treinamento e uma área para praticar a pontuação. As imagens de referência são da Université de Montréal: por isso este texto descreve as unidades e não reproduz as figuras.

UNESP-Botucatu: a escala multidimensional brasileira

A Escala Multidimensional da UNESP-Botucatu para avaliação de dor pós-operatória em gatos (UFEPS), desenvolvida por Brondani, Luna e colaboradores, foi pioneira na literatura científica, segundo o portal Animal Pain, ao apresentar um ponto de corte numérico para intervenção analgésica. Hoje existem duas versões, ambas disponíveis em português no portal Animal Pain.

Versão completa (UFEPS): 10 características distribuídas em três dimensões (alteração psicomotora, expressão da dor e variáveis fisiológicas, estas com pressão arterial e apetite). Cada item vai de 0 a 3, total de 0 a 30, com intervenção analgésica a partir de 8. As subescalas têm ponto de corte próprio (alteração psicomotora a partir de 4/12, expressão da dor a partir de 3/12, as duas somadas a partir de 7), o que permite usar só parte da escala quando o gato não deixa avaliar tudo.

Versão curta (UFEPS-SF): tirou apetite e pressão arterial e combinou itens. Ficaram 4 itens, cada um de 0 a 3: postura; comportamentos específicos (contrair e estender os membros pélvicos ou contrair a musculatura abdominal, olhos semicerrados, lamber ou morder a área afetada, movimentar a cauda fortemente); conforto, atividade e atitude; e reação ao toque seguido de pressão ao redor da área dolorosa. Total de 0 a 12, com resgate a partir de 4. Quando não é possível palpar, exclui-se o item de toque: a escala vai de 0 a 9, com resgate a partir de 3. O portal descreve ainda uma zona de incerteza diagnóstica entre 3 e 5 pontos, faixa em que o julgamento clínico pesa mais, e avisa que olhos semicerrados não devem ser considerados até 1 hora após o fim da anestesia.

A versão curta foi validada em oito idiomas, incluindo o português. Na tabela de ferramentas para dor aguda felina das diretrizes da WSAVA, ela e a FGS são as recomendadas para uso em consultório pelo alto grau de evidência científica. O portal Animal Pain oferece vídeos de cada item e testes de treinamento: o avaliador é considerado apto quando suas notas ficam até 20% acima ou abaixo do gabarito em pelo menos três testes. O próprio portal lembra que, independentemente do escore, cabe ao médico-veterinário decidir a analgesia pela avaliação clínica.

Comparando as ferramentas

EscalaO que avaliaFaixaAnalgesia de resgatePrecisa tocar?
Feline Grimace Scale5 unidades de ação faciais0 a 10≥4/10Não
UNESP-Botucatu curta (UFEPS-SF)Postura, comportamento, atitude, reação ao toque0 a 12≥4 (≥3/9 sem palpação)Sim, quando possível
UNESP-Botucatu completa (UFEPS)10 itens, inclui pressão arterial e apetite0 a 30≥8Sim
Glasgow CMPS-Feline7 itens comportamentais e faciais0 a 20≥5/20Sim
Colorado (CSU) felinaComportamento e palpação0 a 4Sem validação demonstradaSim

Sobre a escala de Colorado felina: o documento do Global Pain Council da WSAVA informa que ela passou apenas por teste de confiabilidade, que a validade ainda não foi demonstrada e que outras ferramentas validadas devem ser preferidas. O estudo preliminar de Shipley et al. (2019) encontrou correlação abaixo do recomendado com a CMPS-Feline.

Quando usar cada uma

Dor aguda e pós-operatório na internação. As duas escalas valem, e elas se complementam:

A WSAVA recomenda, sempre que possível, avaliar o gato antes da cirurgia para ter uma linha de base, e começar a avaliação pós-operatória quando ele estiver em decúbito esternal e orientado. Sedação e alguns anestésicos interferem no período inicial. As diretrizes destacam que a atitude individual do gato influencia a pontuação, e que acompanhar a mudança em relação à linha de base costuma dizer mais que o número isolado. Gatos não devem ser acordados para a avaliação: repouso e sono numa postura normal, enrolada e relaxada, são bons sinais de conforto.

Dor crônica (osteoartrite e doença articular degenerativa). Aqui nenhuma das duas serve. O site da FGS é taxativo: a escala não deve ser usada para dor crônica, como a osteoartrite. A UNESP-Botucatu foi desenvolvida para dor pós-operatória e é usada em dor aguda. Para dor crônica, a WSAVA e a AAHA apontam instrumentos preenchidos pelo responsável, que convive com o gato e percebe mudanças graduais:

A NC State informa que seus questionários de dor crônica não ficam disponíveis para download direto e que o acesso, para uso clínico ou de pesquisa, é solicitado ao laboratório; para o FMPI, o laboratório cita versões em francês e espanhol. Vídeos caseiros do gato andando, pulando, subindo e usando a caixa de areia também são recomendados pela WSAVA. Para o fisiatra, isso tem uma consequência prática: num gato em reabilitação por doença articular, o instrumento de acompanhamento não é a FGS.

Registrar a evolução de forma comparável

Uma escala só vira prova de resultado quando é aplicada sempre da mesma forma:

No VetMotion, a escala padrão já vem pré-selecionada por espécie: Glasgow CMPS-SF no cão; Feline Grimace Scale no gato, com a UNESP-Botucatu disponível ao lado; escala de expressão facial equina (0 a 12) no cavalo, com a Composite Pain Scale disponível. O app só aceita valores dentro da faixa da escala escolhida e mostra a curva de dor ao longo das sessões. No caso da UNESP-Botucatu, o campo do app corresponde à versão completa (0 a 30): quem usa a versão curta (0 a 12) deve anotar o escore e a versão na observação da sessão, para não misturar as duas faixas na mesma curva. A escolha do instrumento, e a decisão clínica, continuam sendo do médico-veterinário.

Resumo para a rotina

Perguntas frequentes

Qual é o ponto de corte da Feline Grimace Scale?

Segundo as diretrizes de dor da WSAVA (2022), gatos com pontuação igual ou maior que 4/10 provavelmente estão com dor e precisam de analgesia de resgate. No estudo de validação, o escore é expresso como razão (soma dividida pelo máximo possível) e o ponto de corte foi acima de 0,39, o que corresponde a 4/10 quando as cinco unidades de ação são avaliadas.

Posso usar a Feline Grimace Scale em gato com artrose?

Não. O site oficial da escala é explícito: a FGS foi desenvolvida e validada para dor aguda e não deve ser usada para dor crônica, como a osteoartrite. Para doença articular degenerativa, use instrumentos de dor crônica preenchidos pelo responsável, como o FMPI.

Qual a diferença entre a UNESP-Botucatu completa e a versão curta?

A completa (UFEPS) tem 10 itens em três dimensões, inclui pressão arterial e apetite, vai de 0 a 30 e indica resgate a partir de 8. A versão curta (UFEPS-SF) tem 4 itens pontuados de 0 a 3, vai de 0 a 12 e indica resgate a partir de 4. As pontuações das duas não são intercambiáveis.

E se o gato não deixa tocar?

A Feline Grimace Scale não exige manipulação e é a opção natural. Na versão curta da UNESP-Botucatu, quando não é possível palpar a área dolorosa, o item de reação ao toque é excluído: a escala passa a ir de 0 a 9, com resgate a partir de 3.

Posso usar a escala de Glasgow do cão em gatos?

Não. A CMPS-SF é canina. Para gatos existe a Glasgow Composite Measure Pain Scale – Feline (CMPS-Feline), com 7 itens, total de 20 e resgate a partir de 5/20, segundo as diretrizes da WSAVA.

O responsável pode usar a Feline Grimace Scale em casa?

A escala se mostrou confiável também quando aplicada pelos responsáveis pelos gatos, segundo a WSAVA, e o site oficial tem conteúdo e aplicativo voltados a eles. Vale orientar o responsável a usá-la como sinal para entrar em contato com a equipe, nunca para medicar o gato por conta própria.

Fontes consultadas

  1. Feline Grimace Scale — site oficial (Université de Montréal), versão em português
  2. Feline Grimace Scale — Perguntas frequentes (uso em dor aguda, osteoartrite, gato dormindo)
  3. Evangelista MC et al. (2019). Facial expressions of pain in cats — the development and validation of a Feline Grimace Scale. Scientific Reports 9, 19128
  4. Animal Pain (UNESP-Botucatu) — Avaliação da dor em gatos: UFEPS e UFEPS-SF, com vídeos de treinamento
  5. Animal Pain — Artigos científicos sobre dor em gatos (Brondani et al. 2011, 2012, 2013; Belli et al. 2021; Luna et al. 2022)
  6. WSAVA — Diretrizes de 2022 para Reconhecimento, Avaliação e Tratamento da Dor (versão em português)
  7. WSAVA Global Pain Council — Pain scales used for assessment of acute pain in cats
  8. 2022 AAHA Pain Management Guidelines for Dogs and Cats (Gruen ME et al., JAAHA 58, 55–76)
  9. NC State University — Clinical Metrology Instruments (FMPI, MiPSC, CSOM)
  10. Shipley H et al. (2019). Preliminary appraisal of the reliability and validity of the Colorado State University Feline Acute Pain Scale. J Feline Med Surg 21(4), 335–339

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